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OESP, Metropole, p. A20
18/07/2015
Uma noite com Ana

Uma noite com Ana

Fernando Reinach
fernando@reinach.com

Ontem passei uma noite maravilhosa com Ana, com quem não dormia desde 1970. E dessa vez levei meu filho para conhecê-la. Com 9 anos, suspeitava que ele já conseguiria apreciar a beleza e usufruir o prazer de uma noite no íntimo de Anavilhanas. Não errei, as horas na floresta se prolongaram nos sonhos.
O arquipélago de Anavilhanas não se esconde, é grande demais para isso. São mais de 400 ilhas por entre as quais o Rio Negro se esgueira duas centenas de quilômetros antes de chegar a Manaus. Na cheia a maioria das ilhas fica submersa. Somente as árvores aflorando na superfície demarcam onde termina o rio e começa a ilha. Incontáveis navegadores se perderam nesse emaranhado de ilhas, lagos, paranás e igarapés. Atravessar o Rio Negro na altura do arquipélago é uma aventura quase impossível. Melhor navegar rio abaixo por entre as ilhas.
Embarcamos em um bote de alumínio duas horas após o pôr do sol. Nada de lua ou nuvens. Meia hora de navegação e já estávamos no emaranhado de ilhas, isolados das poucas lâmpadas que iluminam a margem do Rio Negro. A Via Láctea fez jus ao nome. As estrelas maiores se sobressaíam, não sobre um fundo negro, mas sobre uma manta leitosa. O Cruzeiro do Sul próximo do horizonte. Constelações do Hemisfério Norte no outro lado.
Na proa, munido de um farolete, Roberlam ilumina a floresta saltando de árvore em árvore, ora iluminando o topo, ora as partes baixas. A luz se fixa em um local, ele oscila o farolete e Renato corta o motor. O bote desliza no silêncio. O som das rãs domina a paisagem, enquanto nos dirigimos para o foco de luz. O barco para. Olhamos para o foco do farolete. Não se vê nada, somente folhas e galhos dez metros acima de nossa cabeça. Continuamos a olhar. Derepente, aparece o bicho-preguiça pendurado num galho, se movendo lentamente. Do seu lado um filhote. A escuridão, o bicho-preguiça iluminado e o barulho das rãs.
No início parece mágica, o farolete para, o barco desliza em direção a um novo bicho, dessa vez uma enorme e caranguejeira, do tamanho de uma mão aberta, em um tronco seco que sai do fundo do rio. Mais adiante tudo se repete, agora é uma enorme jiboia enrolada sobre um galho esperando seu jantar. Rãs, porco-espinho, um casal de aves dorminhocas, e vamos passando a noite no interior de Anavilhanas.
Mas a mágica tem explicação. O feixe do farolete bate na córnea de um olho na floresta, a luz é focada pelo cristalino, bate na retina, e volta para o olho treinado de Roberlam que, oscilando o farolete, indica para Renato o local onde o animal foi localizado. Colocando meus olhos na reta que ligava um jacaré aos olhos de Roberlam pude observar dois pontos luminosos a mais de cem metros de distância. Nos aproximamos aos poucos. Sem motor. O farolete nos pontos luminosos. Entre os arbustos, um pequeno jacaré de 30 centímetros nos observava. Por incrível que pareça é mais fácil localizar animais na escuridão da floresta do que em plena luz do dia.
Após horas perdidos nas entranhas de Anavilhanas, entramos por um pequeno canal e terminamos dentro da floresta alagada. Motor desligado, em plena escuridão ficamos ouvindo a floresta. A brisa entre os galhos, as rãs coaxando, galhos se quebrando, tudo iluminado pela Via Láctea.
Foi mais tarde, na rede, ouvindo Paulo Vanzolini (Cheguei na boca da noite/ Saí de madrugada /Eu não disse que ficava/Nem você perguntou nada), lembrei minhas primeiras noites no interior da Amazônia, em uma rede no alto Madeira nos anos 70. Não sei se me apaixonei naquela noite, mas dois anos depois fui estudar Biologia. Cuidado, dormir com Anavilhana pode mudar a sua vida.

É BIÓLOGO

OESP, 18/07/2015, Metrópole, p. A20