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O Globo, Sociedade, p. 31
18/11/2014
Turismo e raridade em parques nacionais

Turismo é raridade em parques nacionais
Uma em cada quatro unidades de conservação não recebeu visitantes em 2013, revela levantamento

Mariana Sanches

SÃO PAULO - Uma em cada quatro unidades de conservação não recebeu nenhum visitante em 2013. É o que indica uma pesquisa inédita feita pelo Instituto Semeia, especialista em reservas naturais, que ouviu gestores de 201 parques ou reservas em 21 estados e no Distrito Federal, o que equivale a cerca de 10% do total de unidades de conservação em todo o país. O resultado é alarmante, já que todas essas áreas são - ou deveriam ser - abertas ao público. Dentre os motivos para a ausência de público está a falta de estrutura. Os gestores ouvidos pela pesquisa são quase unânimes em concluir que a quantidade de recursos que recebem, seja do governo federal, estadual ou municipal, é insuficiente para manter as áreas. Não à toa, 66% dos parques não têm qualquer serviço de apoio ao uso público e 56% não têm plano de manejo, como mostra o estudo.
- Fui gestora do parque estadual do Cristalino, na Amazônia. Tinha que levar papel higiênico de casa, tamanha a falta de estrutura. A população do entorno odiava o parque, que era visto como um entrave ao desenvolvimento e não como algo que pertencia à comunidade - diz Ana Luísa da Riva, diretora executiva do Semeia.
Manter uma reserva chega a demandar atos de heroísmo. O Parque Nacional Serra da Capivara, considerado pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade, é um exemplo. A área, de 130 hectares, possui 912 sítios arqueológicos, alguns de mais de 100 mil anos. A fauna e a flora são únicos, mas a falta de recursos provocou o quase desaparecimento de espécies, como o tamanduá, vítimas da caça comercial. O desmatamento é outro problema. Dos 270 funcionários necessários para a proteção do parque, há 80 trabalhando.
- Não sei como vou pagá-los no mês que vem - afirma a arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, gestora do parque. Aos 81 anos, Niède afirma que já gastou R$ 1,6 milhão do próprio bolso com o parque, contraindo empréstimo bancário em seu nome por causa disso:
- O governo brasileiro não trata a questão com seriedade, não tem orçamento fixo para o parque - diz ela.
BAIXA ARRECADAÇÃO NO SETOR
O Parque da Serra da Capivara recebe anualmente 25 mil visitantes. Não é muito, considerando-se que o parque teria capacidade de receber cinco milhões de pessoas. A diferença entre o potencial e a realidade é o que explica por que o Brasil, apesar de citado pelo Fórum Econômico Mundial como o país com maior capacidade lucrativa a partir de suas belezas naturais, sequer figure na lista dos 50 países que mais arrecadam com essa modalidade de negócios. O Instituto Semeia estimou a quantidade de dinheiro que o país poderia ganhar caso fizesse o básico para divulgar as áreas de conservação (como instalar portarias). Em dez anos, a receita somaria R$ 168 bilhões.
- Temos a difícil tarefa de convencer o governo de que é preciso colocar público nessas áreas. Lugar vazio não existe. Alguém vai ocupar essas áreas de algum jeito. Melhor que seja com gente para admirar as belezas do que para destruí-las - afirmou Maria Cecília Wey de Brito, secretária geral do WWF Brasil.
Uma pesquisa realizada recentemente pelo WWF concluiu que a população tem orgulho e valoriza a natureza brasileira, mas desconhece que pode visitar os parques e usufruir deles. As áreas poderiam ser ainda mais valorizadas se os brasileiros soubessem da íntima relação delas com a produção energética: 70% da matriz hidrelétrica é impactada diretamente por uma área protegida.
- As pessoas não fazem ideia de que os parques são públicos, pertencem aos próprios brasileiros. Por isso não cobram o governo para melhorar a vergonhosa situação atual dessas áreas: gestões baseadas em nomeações políticas e o patrimônio natural e cultural sendo dilapidado - diz Maria Cecília.
Questionado, o Instituto Chico Mendes (ICMBio) disse, por nota, "que não tem conhecimento de que gestores de Unidades de Conservação estejam pagando funcionários com recursos próprios e que não há qualquer orientação da instituição neste sentido". Ressaltou também que destinou, nos últimos quatro anos, R$ 171 milhões para a administração de parques nacionais. Trata-se de uma quantidade significativa de recursos, mas que ainda é insuficiente.
Especialistas admitem que quase nenhum governo no mundo teria dinheiro para custear a gestão de parques da melhor maneira possível. Segundo eles, seria preciso buscar alternativas para a administração. Um dos modelos em discussão é o de parceria público-privada. A inspiração vem da administração do Central Park, em Nova York, assim como de áreas de conservação da Nova Zelândia, e funciona da seguinte maneira: em troca da exploração comercial da área (cobrando ingressos para a entrada, por exemplo), o empresário se compromete a manter e conservar o parque e a fazer melhorias públicas (como cercamento, manutenção de trilhas, pesquisas sobre biodiversidade, etc.).
- Seria uma maneira de garantir às áreas de conservação um cuidado muito maior do que o governo tem dado. E para o empresário pode ser um bom negócio - afirma Ana Luisa Riva, defensora da ideia.
A primeira experiência do tipo pode acontecer já no começo de 2015, na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Ali foi encontrado o fóssil da mulher mais antiga das Américas, Luzia. A área é rica em belezas naturais e culturais. Mas sofre com a falta de estrutura para receber visitantes e preservar o patrimônio. Por isso, a ideia de passar a administração para a iniciativa privada é vista com otimismo pelos especialistas. Para eles, pode ser um boa chance de evitar que as pinturas rupestres das grutas locais acabem substituídas por pichações.

Seminário gratuito debate hoje novos rumos do setor
Especialistas apresentarão experiências bem-sucedidas em parques no Brasil e no exterior

Não basta construir, é preciso cuidar. Partindo dessa premissa, especialistas brasileiros e estrangeiros se reúnem hoje e amanhã no Jardim Botânico para discutir novos modelos de gestão para os parques urbanos no país. Experiências internacionais, como a do Central Park e do Brooklyn Bridge Park, ambos em Nova York, serão apresentadas ao lado de iniciativas brasileiras, como a do Parque Sitiê, criado por moradores do Vidigal, e o Parque do Flamengo, que completa 50 anos em 2015.

- Os orçamentos dos municípios são apertados, e temos legislações que não se adequaram às novas dinâmicas das cidades - diz Tomas Alvim, cofundador da Arq.Futuro, uma das instituições organizadoras do evento. - O objetivo é pensar em novos modelos de concessão, parcerias público-privadas e até a gestão por organizações sociais.

Entre os destaques da programação do seminário Parques do Brasil estão Elizabeth Barlow Rogers, primeira administradora do Central Park e fundadora do Central Park Conservancy; Regina Myer, diretora do Brooklyn Bridge Park; Mauro Quintanilla, músico e presidente do Parque do Sitiê; e Dima Boulad, fundadora do Beirut Green Project.

- No Vidigal, os moradores retiraram toneladas de lixo para a criação de um parque. No Líbano, uma ativista cria parques em zonas de conflito para servirem como espaço de mediação. São iniciativas muito pertinentes à situação do Rio, que passa pelo processo de pacificação em comunidades carentes - diz Alvim.

O evento vai apresentar ao público experiências bem-sucedidas, mas também pretende servir de base para a formulação de propostas de mudanças legais para dinamizar e tornar mais eficiente a gestão dos parques urbanos. Pesquisadores da FGV e da Uerj vão discutir as implicações jurídicas, e representantes dos setores público e privado vão debater novos modelos de administração e investimento.

O seminário Parques do Brasil acontece hoje e amanhã, das 9h às 18h30, no Espaço Tom Jobim, que fica na Rua Jardim Botânico, 1.008. A agenda completa está no site www.arqfuturo.com.br. A entrada é gratuita.

O Globo, 18/11/2014, Sociedade, p. 31

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