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O Globo, Sociedade, p. 22
06/02/2017
Morte de macacos silencia as florestas

Morte de macacos silencia as florestas
Surto mergulhou Mata Atlântica numa das maiores tragédias de sua história recente

Ana Lucia Azevedo

Numa floresta das terras altas da região central do Espírito Santo, o chiado das cigarras é interrompido por risadas distantes. O riso, na verdade, é o grito de alerta de um bando de sauás, que se embrenha pela mata e desaparece. Os sauás da Reserva Biológica de Santa Lucia, em Santa Teresa, são sobreviventes de um massacre. Fogem da segunda onda de destruição da Mata Atlântica em menos de dois anos. À medida que a febre amarela se alastra, ninguém mais canta, ninguém ri. A febre calou os macacos, as vozes mais estridentes da floresta, e mergulhou a Mata Atlântica numa de suas maiores tragédias.
A primeira onda veio em lama e rocha de mineração. Arrancou árvores. Sepultou rios. A segunda se derrama agora pela copa das florestas, vence montanhas, espalha morte. A febre amarela provoca o que especialistas já consideram a maior matança de animais na história recente da Mata Atlântica. Depois da onda de rejeitos da barragem da Samarco em Mariana, em 2015, o mais devastado dos biomas do Brasil sofre outra vez. De novo, o epicentro é o Vale do Rio Doce, entre Minas Gerais e Espírito Santo. Mas há registros de macacos mortos também em São Paulo, Bahia, Goiás e Mato Grosso do Sul.

Perda Incalculável
O primatologista Sérgio Lucena, que há três décadas estuda a região do Vale do Rio Doce, diz que só no Espírito Santo 600 carcaças de macacos foram encontradas desde o início de janeiro. Este número, segundo ele, representa apenas entre 10% e 20% do real. Em Minas, os macacos simplesmente desapareceram de algumas áreas. Começaram a morrer meses antes e ninguém sabe calcular ainda a perda.
- Só é possível recuperar uma pequena parcela dos animais, aqueles que morreram no chão da floresta, mas muitos estão nas árvores. São milhares de mortos, um desastre sem precedentes - afirma Lucena, professor do Laboratório de Biologia de Conservação de Vertebrados da Universidade Federal do Espírito Santo.
As maiores vítimas são bugios ou barbados (Alouatta guariba), outrora muito comuns na região. Mas nesta epidemia animal - epizootia, no jargão da ciência - morrem ainda sauás ou guigós (Callicebus personatus), macacos-pregos (Supajus nigritus) e micos-de-carabranca (Callithrix geoffrey).
A região é habitat de espécies ameaçadas de extinção. A mais preciosa delas, o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthu), maior primata das Américas, por enquanto tem se mantido a salvo - a espécie parece ser mais resistente ao vírus da febre amarela. Mas o raro e ameaçado sagui-da-serra (Callithrix flaviceps) não escapou. Na semana passada, de um bando de 14 animais, 12 morreram em Ipanema, município mineiro na divisa com o Espírito Santo.
- Os macacos são mais vulneráveis que o ser humano. Para eles, não há a proteção da vacina. Nas florestas, a febre amarela silvestre ocorre em ciclos de cerca de sete anos. Mata macacos e depois desaparece para reemergir quando a população se recupera. Mas nada com a dimensão que vemos agora aconteceu antes - diz Lucena.
A febre amarela não é uma doença originária da floresta brasileira. É um flagelo que acompanhou a desgraça da escravidão. Os navios negreiros do século XVII trouxeram da África também o vírus e o mosquito Aedes aegypti. A febre era inicialmente urbana.
Mas o vírus se espalhou e nos anos 1930 a forma silvestre foi descrita no Vale do Canaã, no Espírito Santo, onde agora volta a assombrar. Ele se tornou capaz de infectar os mosquitos silvestres e estes o transmitiram para suas vítimas preferenciais, os macacos. O principal reservatório é o mosquito. E o macaco se tornou hospedeiro. Não é o homem que morre da doença do macaco. É o macaco que morre da doença do homem.
A despeito disso, macacos que escapam da doença têm sido atacados e mortos por gente com medo da febre. Na semana passada, um barbado foi morto a tiros em Realeza, Minas Gerais.
- O macaco é tão vítima quanto nós - lamenta Lucena.
O cientista lidera uma força-tarefa de cerca de 20 pesquisadores que passam os dias nas matas para localizar carcaças e bandos sobreviventes. Trabalhando em colaboração com a vigilância sanitária, eles buscam descobrir causa e origem da epidemia. Na semana passada, numa encosta íngreme da Serra dos Pregos, em Santa Teresa, Lucena, o técnico ambiental Rogério Ribeiro dos Santos e a estudante de Biologia Bruna Pacheco Pena tentavam acompanhar um filhote de barbado, cuja mãe morrera.
- Ele não tem salvação. Se não adoecer, gaviões ou cobras o apanharão. Por algum motivo, os adultos parecem estar morrendo primeiro - diz Santos.
O filhote desapareceu, mas os gemidos de outro remanescente do bando foi ouvido ao longo do dia. Um macho agonizante ainda estava nas redondezas.
- Tem sido assim nas últimas semanas. Encontramos apenas carcaças ou uns poucos sobreviventes, quase sempre doentes ou filhotes órfãos. E isso em várias partes do estado. Há macacos morrendo no Parque Nacional do Caparaó, em reservas biológicas, bordas das roças - explica Lucena.
O lavrador Waldir Henker, da comunidade de imigrantes pomeranos da Serra dos Pregos, se aproxima para conversar com os pesquisadores. Henker, de 44 anos, fala português com forte sotaque, mas nasceu na região. Sua comunidade mantém o dialeto de origem germânica e tem nomes próprios para designar os macacos, parte de seu cotidiano entre roça e floresta.
- Nunca vimos algo assim. Os macacos eram tão comuns. Você pode entrar na mata que não vai achar. Não cantam mais - conta.
O lamento de Henker encontra eco em Minas. Dono da mais poderosa voz da floresta atlântica, o barbado não "canta" mais para a chuva. Famoso por rugir quando o tempo muda, sua voz reverberava por quilômetros. No Leste de Minas, desde dezembro, não mais. Após três anos de seca severa, as chuvas voltaram na primavera de 2016. Mas em dezembro, na região de Caratinga, não havia mais macacos para cantar a chuva.
- Eles faziam festa quando o tempo mudava. Sinto falta deles - lembra Claudinei da Silva Campos, 36 anos, que adoeceu em janeiro.
O também primatologista Fabiano Rodrigues Melo, professor da Universidade Federal de Goiás, observa que no passado alguns surtos causaram extinções locais de macacos no Sul e no Centro-Oeste, mas nada na dimensão de agora.
- O vírus tem matado um número impressionante de animais. E a floresta toda está ameaçada, pois os macacos são fundamentais para o equilíbrio da Mata Atlântica. Eles dispersam sementes. Tudo está interligado - frisa.
Conhecidos como engenheiros das matas, os macacos são importantes para a distribuição das árvores e, com isso, dos demais animais que delas dependem.
- A situação é grave porque acomete um bioma frágil. Restam cerca de 12% da Mata Atlântica, 83% dos quais são fragmentos com menos de 50 hectares, o que só dificulta a recuperação. Para piorar, a Mata Atlântica foi extremamente degradada no Vale do Rio Doce. Os macacos têm impacto sobre a floresta inteira - destaca Fabio Scarano, diretor-executivo da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) e um dos maiores especialistas do Brasil em Mata Atlântica.
A diretora-executiva da Fundação SOS Mata Atlântica, Marcia Hirota, vê na matança dos macacos pela febre amarela um retrocesso nos esforços de recuperação:
- É muito triste ter mais essa tragédia. Está mais que na hora de o país entender que meio ambiente e sociedade são indissociáveis. A saúde da mata é a saúde de todos.
O virologista Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, um dos maiores especialistas em febre amarela do mundo e diretor do Instituto Evandro Chagas, no Pará, ressalta que o vírus tem se espalhado depressa. Ele diz que ainda levará tempo para descobrir o motivo. Uma possibilidade é que pessoas infectadas tenham sido picadas por mosquitos silvestres e levado o vírus para outras regiões.
- A gente só descobre esses casos quando são graves e a pessoa morre. Alguns dos infectados pela febre amarela são assintomáticos ou se recuperam logo. Outro meio possível é o tráfico de animais. Bichos doentes são levados para longe por traficantes e podem espalhar doenças - alerta Vasconcelos.
Lucena afirma que não se sabe quando e como o surto vai acabar: - Quase tudo é incerteza. De certo, só que a mata não canta mais. A mata chora.

O PARAÍSO SITIADO DE UM ACROBATA GENTIL

Há sinais de alerta no refúgio de uma das criaturas mais preciosas da Terra. Mas alheios à tragédia que se desenrola em outras partes da Mata Atlântica daquela região do Brasil, fêmeas e filhotes de muriqui-do-norte saltam entre árvores gigantes em busca de comida. São cerca de 15 animais a explorar um trecho da Reserva Particular do Patrimônio Natural Feliciano José Abdala, em Caratinga, Minas Gerais em busca de folhas frescas, frutas e flores, seus alimentos.
O salto do muriqui é quase voo. O maior primata das Américas domina a acrobacia, mas não se sabe se está a salvo do vírus da febre amarela que tem dizimado outras espécies de macacos, em especial o barbado, ou bugio. Os pesquisadores estão preocupados. Muito. Embora se acredite que o muriqui resiste melhor ao vírus que outros macacos, há sinais de que as coisas podem não estar bem.
Vê-los é um privilégio. O muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) está criticamente ameaçado de extinção, é um dos animais em maior risco no planeta. E a RPPN Feliciano José Abdala abriga uma preciosidade das matas de Caratinga. Lá vive o maior grupo do país de muriquis-do-norte. Em junho de 2016, a primatologista americana Karen Strier, a maior especialista do mundo nestes animais, havia contado 350 indivíduos na RPPN. Karen há 34 anos estuda os muriquis de Caratinga e lidera um projeto para preservá-los.
- Faltam alguns indivíduos, desde setembro. Não sabemos ainda se foi a febre amarela. Ou se foi consequência da seca severa dos últimos dois anos, que enfraqueceu muito os animais. Pode ser mortalidade natural. Mas faltam macacos na RPPN. Graças a nosso monitoramento de longo prazo, poderemos saber em breve o que aconteceu. Isso é muito importante para avaliar a vulnerabilidade do muriqui ao vírus - afirma a cientista.
O primatologista Marcello Nery também está preocupado. Os muriquis da RPPN não têm muito para onde ir. A floresta fora da reserva vive em fragmentos.
- O barbado está sofrendo demais, mas esperamos que com o muriqui as coisas não estejam assim - diz Nery, assessor da RPPN e da Rede de Ensino Doctum, de Caratinga.
Há três décadas estudando os muriquis de Minas e do Espírito Santo, Sérgio Lucena não esconde o temor:
- Os barbados da RPPN foram dizimados pela febre amarela. Estimo que cerca de 80% deles tenham morrido. Eram quase mil, agora são difíceis de observar.
Os muriquis conquistaram a fama de "macacos hippies" pela docilidade e a intensa vida social igualitária. Desafiam o ditado popular "cada macaco em seu galho" e compartilham não só o galho, mas parceiros sexuais e carinhos grupais. Também adoram se abraçar. O fazem para se cumprimentar e para alertas de grupo. Agora, os pesquisadores esperam que os muriquis escapem de mais essa ameaça e não tenham motivos para se abraçar por causa da febre amarela.

O Globo, 06/02/2017, Sociedade, p. 22

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