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G1 - http://g1.globo.com/
15/08/2014
Globo Reporter atravessa o Parque do Caparao e vai ao Pico da Bandeira

A pequena parte da Floresta Atlântica que resta é uma colcha de retalhos, costurada por pasto, agricultura e asfalto. O Parque Nacional do Caparaó é uma das áreas mais importantes de preservação da Mata Atlântica.

O Globo Repórter tem como objetivo chegar ao Pico da Bandeira, o terceiro ponto mais alto do Brasil e presenciar uma das vistas mais bonitas que a Mata Atlântica pode oferecer. O parque atravessa dois estados: Minas Gerais e Espírito Santo. A equipe do programa tem como objetivo iniciar a subida pelo lado mineiro, alcançar o Pico da Bandeira e descer pelo Espírito Santo.

São 2.890 metros de altitude, com muita aventura e descobertas pelo caminho.

"Vai ter sol, vai ter frio e a gente vai carregar peso!", avisa o Fred Ayres, guia.

Aventureiros e pesquisadores participam da subida. Vinícius é professor de botânica da USP e sempre encontra novidades no local.

Globo Repórter: Você parou aqui de repente surpreso por quê?
Vinicius Souza Castro, botânico da USP: Porque essa planta aqui, ela embora ocorra também em outras áreas aí de Minas Gerais e do Espírito Santo, é a primeira vez que a gente tá vendo ela aqui no parque. Então é o primeiro registro dessa espécie aqui no Parque Nacional do Caparaó.

"É um registro novo para nós aqui, o Vinicius que viu e ganhamos o dia já, vamos dizer assim né, Vinicius?", comenta Lúcio Leoni, botânico.

Mineiro criado na região, Leoni nunca se formou em Biologia. Mas conhece o Caparaó como poucos.

"Eu passei a ter um carinho, um amor enorme pelo Parque Nacional do Caparaó. Eu me sinto, assim, como se fosse um membro aqui dessa unidade de conservação.", conta Leoni.

Hoje, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, existem até algumas espécies com o nome dele.

"Aqui ó, em homenagem ao Lúcio, Oxpetalum Leoni, outra espécie, Ditassa Leoni também. Então, todas essas plantas foram descritas em homenagem ao Lucio Leoni. Todas do Caparaó, a maioria delas exclusiva do Caparaó", diz Rafaela Forzza, botânica do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Carolina Demétrio estuda os pássaros do parque. Ela grava e reproduz o som de cada passarinho e também usa rede de captura.

Globo Repórter: Não machuca o bichinho não, a rede?
Carolina Demétrio, ornitóloga da UFES: Não, ela é muito fininha, aí depois de tirar os tarsos, tira a asa e por último a cabeça. E sai o bichinho.
Globo Repórter: Carol, que passarinho é esse que vocês capturaram?
Carolina Demétrio: Esse aqui é um Synallaxis ruficapilla. E o popular é pichororé.
Globo Repórter: Você pegou um pichororé então?
Carolina Demétrio: Nove centímetros de asa.

Os alunos de Carolina tiram as medidas e anilham os pássaros. Depois, liberdade outra vez! Eles querem saber a que altura voa cada espécie. No caso das plantas, essa observação é bem mais fácil.

À medida que a gente vai chegando aos 1.900 metros de altitude, a vegetação do Parque Nacional do Caparaó muda completamente, com árvores bem menores do que as que existem, na parte de baixo, na mata fechada. A explicação para isso é que, quanto mais alto, menos água acumula no solo e por isso a paisagem muda tanto.

"Olha, essa espécie de bambu ela é endêmica aqui da Serra do Caparaó. Endêmica significa não tem em nenhum outro lugar do mundo, a não ser aqui.", explica Vinicius Souza Castro, botânico da USP.

A equipe chega na altura das nuvens e a temperatura começa a baixar. Em uma casa, a mais de 2000 metros de altura, as pessoas esquentam o corpo e se preparam para a parte mais pesada da subida.

A equipe deixa a base de apoio, o Terreirão, com 2.370 metros de altitude, onde descansou durante a noite, mas é de madrugada que começa a etapa final da caminhada até o Pico da Bandeira, para ver o dia amanhecer lá em cima. Nessa parte final o caminho é pela pedra e à noite. A subida é bem mais íngreme.

Quanto mais perto do Pico da Bandeira, mais frio é o caminho. Por isso sempre tem um dilema. Se parar para descansar esfria muito, se não parar também fica muito cansado.

Chega um ponto da subida que a trilha plana acaba. E só existe a subida entre as pedras.

Ainda durante a madrugada, quase 5h00, com tudo escuro, e a equipe pisa no ponto mais alto do Pico da Bandeira - 2890 metros de altitude. É a hora de esperar para observar um espetáculo que se repete todo dia. Só que do alto do Pico da Bandeira, vendo com uma posição muito privilegiada. Mas esperar é como estar dentro de uma geladeira. Só que sem abrigo para o frio. Então cada um se protege como pode. Às vezes é difícil identificar a pessoa dentro do pacote de cobertores. Mas o espetáculo começa trazendo calor com o nascer do sol. O ponto é tão alto que só é possível ver bem abaixo, o topo de outras montanhas. E cada um tem um motivo para comemorar a conquista.

"O prazer que a gente sente em subir essa montanha e chegar aqui e ter esse privilégio de ver toda essa cordilheira do Caparaó, maravilhoso.", afirma Relva Rodrigues, microempresária.

"Isso é meio misterioso, né? Aqui, acho que deixa marcas nas pessoas.", acredita Hélio Ricardo, guia do parque.

"Ano passado, por volta de maio, eu e a minha família viemos aqui de novo, e eu não consegui chegar, porque eu estava muito acima do peso. Aí eu falei, 'não, eu quero continuar, eu quero voltar pro Bandeira e eu entrei num processo de reeducação alimentar, exercícios físicos, só para poder voltar.", diz Nathalia Rodrigues, advogada.

Globo Repórter: Agora parece que tem uma disputa, entre mineiros e capixabas, que história é essa aí?
Hélio Ricardo, guia do parque: Essa é uma briga complicada.
Globo Repórter: Qual é a disputa, me conta?
Hélio Ricardo: Que um lado é mais curto, que o outro é mais bonito. É essa que é a briga. Mas não tem mais briga. O parque é um só e ele é bonito pra todos, que venha do lado do Espírito Santo, que venha do lado mineiro.
Anderson Baudson Moreira, protético: Os dois são bonitos, sem dúvida.
Globo Repórter: Já que a gente subiu pela trilha de Minas, vamos fazer o seguinte então: vamos descer o Pico da Bandeira aqui, pela trilha do Espírito Santo, pode ser? fechado? Então vamos descer.

O lado capixaba nos leva na crista das montanhas. Descemos por pedras e abismos. É bem mais radical! Somos a primeira equipe de TV a cruzar o parque de um estado ao outro. A recompensa? Ver a Mata Atlântica em todo o seu esplendor, protegida. Como deve ser!

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