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O Globo, Sociedade, p. 23
27/06/2017
Corais podem sumir ate 2100

Corais podem sumir até 2100
Relatório da Unesco avalia situação de 29 ecossistemas listados como Patrimônio Mundial
Entre 2014 e 2017 quatro recifes não passaram por branqueamento, entre os quais as Ilhas Atlânticas do Brasil

RENATO GRANDELLE renato.grandelle@oglobo.com.br

Da Grande Barreira da Austrália até Seychelles, na África Oriental, os recifes de coral do mundo estão em grave risco de desaparecer completamente até 2100, caso o nível de emissões de gases-estufa não seja reduzido, segundo um novo relatório da Unesco. O documento é o primeiro a avaliar a situação de 29 ecossistemas listados como Patrimônio Mundial e revela que pelo menos 25 deles experimentarão decréscimo severo até 2040 - o que "matará rapidamente a maioria dos corais presentes e impedirá a reprodução necessária para sua recuperação". Nos últimos três anos, 21 deles sofreram estresse de calor severo ou repetido, e apenas quatro não alcançaram o nível de branqueamento.
- Os 29 recifes de coral na lista de Patrimônio Mundial da Unesco estão sofrendo ameaças existenciais, e sua perda seria devastadora ecológica e economicamente - destaca Mechtild Rossler, diretor do Centro do Patrimônio Mundial da Unesco. - Essas florestas tropicais dos mares protegem comunidades costeiras de alagamentos e erosão, sustentam negócios de pesca e turismo e abrigam grande quantidade de vida marinha.
O valor econômico, cultural e social dos recifes de coral é estimado em US$ 1 trilhão. Projeções indicam que o prejuízo provocado pela perda desses ecossistemas relacionada às mudanças climáticas vai superar os US$ 500 bilhões por ano em 2100, com impactos maiores sobre as populações que dependem dos recifes para a subsistência.
DOIS OU MAIS EPISÓDIOS POR DÉCADA
Com base em dados de satélite da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (Noaa, na sigla em inglês), os pesquisadores consideraram os episódios de branqueamento quando o estresse acumulado no período de 12 semanas era superior a 4 graus Celsius; e os casos de estresse de calor severo, quando ultrapassava a marca de 8 graus Celsius. Entre 1985 e 2013, 13 dos 29 recifes de coral registraram episódios de branqueamento duas ou mais vezes por década.
Entre 2014 e 2017, apenas quatro desses Patrimônios Mundiais não passaram por episódios de branqueamento: as Ilhas Atlânticas do Brasil - que incluem as reservas de Fernando de Noronha e do Atol das Rocas -; o Parque de iSimangaliso, na África do Sul; o Parque Marinho Sanganeb, próximo à costa do Sudão; e o Arquipélago Socotorá, no Iêmen. E apenas oito não passaram por estresse de calor severo.
- Nós sabemos que a frequência e a intensidade desses eventos de branqueamento de corais vai continuar aumentando enquanto a temperatura subir - admite Scott Heron, pesquisador da Noaa e líder da pesquisa. - Nosso objetivo foi documentar os impactos do clima sobre os recifes listados pelo Patrimônio Mundial e examinar o que o futuro pode apresentar. O destino desses tesouros importa a toda Humanidade, e as nações estão comprometidas a apoiar sua sobrevivência.
Estudos indicam que as comunidades de corais levam entre 15 e 25 anos para se recuperarem de episódios de branqueamento em massa. Como o fenômeno tem se tornado mais frequente, os recifes não têm tempo para se recuperar completamente de um evento antes de sofrerem outro.
- Sem passos claros, agressivos e coordenados globalmente para limitar as temperaturas médias ao objetivo do Acordo de Paris, esses bens valiosos continuarão declinando - avaliou Elizabeth Madin, da Universidade Macquarie, na Austrália, país que abriga quatro dos 29 ecossistemas ameaçados. - Os resultados desse relatório devem alarmar qualquer um que dependa direta ou indiretamente de um recife listado pelo Patrimônio Mundial. Isso inclui pessoas em indústrias como a pesca e o turismo, viajantes e pescadores de subsistência e recreativos, apenas para nomear alguns.
Biólogo marinho e coordenador de Planejamento do Projeto Coral Vivo, Clovis Castro alerta que a reação a longo prazo dos corais ao aumento da temperatura global é desconhecida.
- Acredito que os recifes continuarão existindo, possivelmente de maneira diferente da que conhecemos atualmente. Sua cobertura pode mudar, e isso é muito preocupante, considerando o número de pessoas que dependem deles para diversas atividades econômicas, como a pesca.
Um relatório apresentado no início do ano pelas ONGs Earth Justice e Environmental Justice Australia anunciou que 22% dos corais da região morreram. Boa parte não resistiu ao forte fenômeno climático El Niño, registrado em 2016, que aqueceu as águas do Oceano Pacífico. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas, o "menino" vai se manifestar com uma assiduidade cada vez maior, impedindo a revitalização dos ecossistemas. O monitoramento seria complicado até mesmo para a Unesco. O pesquisador da ONG Coral Vivo contesta os elogios da Unesco aos recifes brasileiros que, ao contrário da maioria dos ecossistemas, não teria registrado embranquecimento.
- A Unesco deve ignorar os dados nacionais porque muitas vezes eles não são publicados, ou então este registro ocorre apenas em português, e por isso não entra no banco de dados internacional - ressalta. - Quando o assunto são as mudanças climáticas, o ecossistema marinho brasileiro pode não ter sofrido tanto quanto o Caribe ou a Índia, mas temos outros problemas tão ou mais graves, como a poluição nas regiões costeiras, como Pernambuco e Paraíba, e a sobrepesca, que está aumentando o número de espécies ameaçadas de extinção.
'MUITO IMPORTANTE PARA DESAPARECER'
Os valores econômicos dos recifes podem ser exemplificados por uma avaliação da Deloitte sobre a Grande Barreira de Corais da Austrália. Segundo a consultoria, esse tesouro da Humanidade, que se estende por 2.300 quilômetros da costa, tem valor econômico e social de 56 bilhões de dólares australianos, o equivalente a R$ 141 bilhões. Maior ecossistema do tipo em todo o planeta, a Grande Barreira está seriamente ameaçada de desaparecer após sucessivos episódios de branqueamento. De acordo com a consultoria, isso ameaça 64 mil empregos que dependem do recife direta ou indiretamente.
- O valor estimado da Grande Barreira representa o equivalente a 12 Óperas de Sydney - compara Steve Sargent, diretor da Fundação da Grande Barreira. - O informe demonstra que a Grande Barreira, como ecossistema ou fonte econômica, é muito importante para desaparecer.

O Globo, 27/06/2017, Sociedade, p. 23

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