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FSP, Mais, p. 3
04/04/2010
Basalto basico

Basalto básico
Livro traça panorama de parques nacionais da região Sul misturando fotos espetaculares com geologia

Claudio Angelo
Editor de Ciência

Quem procura um belo livro sobre os parques nacionais da região Sul e compra o recém-lançado "Parques Nacionais Sul -Cânions e Cataratas" pode se sentir justificadamente enganado. Não se trata de um guia de viagem, como a capa dá a entender, e sim de um manual de geologia e biologia.
Mas, longe de querer devolver o produto, o leitor ficará agradecido pelo golpe: em nenhum outro lugar ele aprenderia tanto sobre a história e a diversidade biológica e cultural das paisagens que planeja visitar.
"Sul" é o quarto volume da coleção "Tempos do Brasil", uma das melhores e certamente menos valorizadas séries de divulgação científica que já apareceram no patropi. Divulgação científica, não: talvez o trabalho dos seus organizadores, o geólogo Wilson Teixeira e o fotógrafo Roberto Linsker, pudesse ser melhor descrito como "educação territorial".
Seu objetivo é não apenas apresentar ao potencial turista o cenário espetacular de algum parque nacional brasileiro, como os guias turísticos, nem sobretudo fazê-lo entender a ciência por trás da formação dessa paisagem, como uma obra de divulgação: ele faz as duas coisas. O leitor é convidado a uma viagem no espaço -com 158 fotos- e também no tempo. No caso, no tempo profundo da geologia, medido em milhões de anos.
Olhar um parque através dessas lentes reveste a visita de um outro sentido. Itatiaia deixa de ser meramente uma montanha para transformar-se em um gigantesco e antiquíssimo vulcão abortado. E descobre-se que as ilhas de Fernando de Noronha mais do que merecem o apelido de Havaí brasileiro, pois foram formadas exatamente do mesmo jeito.

Lava
O novo volume da coleção não viaja por um lugar só, mas cinco: os parques do Iguaçu, no Paraná, de São Joaquim, em Santa Catarina e do Turvo, da Serra Geral e de Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul.
Separadas quase todas por centenas de quilômetros de distância, essas formações têm todas uma só origem, há cerca de 134 milhões de anos. Elas são os testemunhos de um dos maiores eventos vulcânicos da história da Terra: um enorme derramamento de lava que cobriu de basalto (rocha derretida) uma região que vai de Goiás à Argentina e ao Uruguai.
O vulcanismo da Serra Geral, como o episódio é conhecido, ocorreu num momento-chave da história da Terra, quando África e América do Sul começaram a se separar, originando o oceano Atlântico. O divórcio foi tão violento que trincou a placa continental sul-americana, produzindo as fendas por onde o basalto escapou.
Quem visitasse a região Sul há 133 milhões de anos provavelmente veria lagos de basalto até onde a vista alcançava. A ação de movimentos posteriores da crosta terrestre e da água sobre essas rochas, então solidificadas, produziu o visual de tirar o fôlego do cânion do Itaimbezinho e também as falésias de Torres, no RS
Em alguns lugares houve vários derrames sucessivos, sobrepondo várias camadas de basalto. Como a dureza de cada uma delas varia, a ação da água por vezes esculpiu "degraus" na rocha. O caso mais famoso é o da foz do rio Iguaçu, onde essa erosão contínua criou as cataratas em vários patamares e continua fazendo o cânion recuar. O leitor aprende, por exemplo, que originalmente o salto estava 20 km adiante, e que continua recuando Paraná adentro à estonteante velocidade de... 2 cm por ano.
O vulcanismo da Serra Geral também teve um efeito colateral pelo qual boa parte dos leitores deste texto deveria agradecer toda vez que abre a torneira: ele soterrou sob milhões de toneladas de basalto um imenso deserto que existia no centro-sul do Brasil. Como arenitos (rochas formadas a partir de areia) são muito porosos e permeáveis, esse paleodeserto sepultado pôde absorver quantidades colossais de água, convertendo-se no que chamamos hoje de Aquífero Guarani -que abastece grande parte da região Sul e do interior de São Paulo.
O livro é pródigo em histórias como essa. Não se trata de uma obra perfeita, porém. Os autores do capítulo de geologia, o próprio Teixeira e Umberto Cordani (ambos professores da USP), torturam o leigo em algumas passagens -referindo-se a "milhões de anos" como "MA", simplesmente, e usando desavergonhadamente jargão de geociências, como "cota" no lugar de "altura".
O capítulo final, que apresenta as atrações dos parques, talvez pudesse funcionar mais declaradamente como um guia, trazendo mapas de trilhas em curvas de nível, por exemplo.
Mas o baú de tesouros aberto por "Sul" apequena eventuais deslizes. Dificilmente um guia de viagens qualquer da serra gaúcha chegaria à minúcia de diferenciar basaltos de riólitos e explicar por que estes formam solos bons para plantar uva e aqueles não.
Uma informação que, por si só, já vale um brinde.

Livro - "Parques Nacionais Sul -Cânions e Cataratas"
Wilson Teixeira e Roberto Linsker (coordenação); ed. Terra Virgem, 204 págs., R$ 60

FSP, 04/04/2010, Mais, p. 3